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No artigo ?Educação pós-pandemia: nada será como antes?, eu apresentei a necessidade de ?integrar as modalidades de educação presencial e virtual em um modelo que seja eficiente e eficaz?, destacando que é imprescindível planejar essa integração e pensar sobre a pedagogia e a didática desse novo modelo. Antes de abordar as especificidades da educação virtual e como ela pode se integrar com a educação presencial, considero importante destacar o potencial educativo de algumas das características das tecnologias de rede (TR) e da Internet.


As TR ?estabelecem uma situação de conectividade generalizada, ampliando e potencializando as possibilidades de comunicação e interação entre os seres humanos? (TEIXEIRA et al., 2010: p. 183), além de permitir o acesso a infindáveis fontes de informação. Isso não significa, entretanto, que essa potencialização seja, de fato, apropriada pelos indivíduos e por processos que independem da tecnologia, como é o caso da educação. Dessa forma, é fundamental questionar até que ponto os processos de construção do conhecimento se apropriam dessas tecnologias e quais as formas de vencer as barreiras que dificultam o acesso participativo e universal dos cidadãos brasileiros ao conhecimento.


É importante considerar que as TR modificam a noção de tempo, pois as redes digitais possibilitam a cada indivíduo ser e estar em qualquer lugar do mundo de forma instantânea. Isso tem implicações profundas, pois rompe com a lógica da distribuição de informações em massa característica dos processos comunicacionais tradicionais. Pela primeira vez na história, é possível a cada pessoa adotar ?uma postura de emissor e produtor de informações, sentidos e significados? (ibid: p. 189), além da condição secular de espectador. Esse processo de criação e cocriação conjunta do conhecimento ?pode levar à potencialização de processos de aprendizagem, entendidos como vivências baseadas na interação, na comunicação social e na reflexão compartilhada sobre o objeto de estudo? (ibid: p. 191).


Além disso, a estrutura característica da ?World Wide Web?(*1), com a lógica do hipertexto(*2) e a linguagem da hipermídia(*3), não é relevante apenas para a organização e a facilidade de utilização da Internet. Segundo Lévy, ?o hipertexto é, talvez, uma metáfora válida para todas as esferas da realidade em que significações estejam em jogo? (1996 apud TEIXEIRA et al., 2010: p. 186). Além disso, a lógica das redes que caracteriza o hipertexto é ?um dos padrões de organização mais básicos de todos os sistemas vivos? (Capra, 2002 apud TEIXEIRA et al., 2010: p. 186). Isso vale tanto para a organização do sistema nervoso, incluindo as estruturas cerebrais envolvidas na cognição, como para os sistemas de significação conceituais construídos no processo de desenvolvimento do conhecimento humano. Assim, como a lógica e o funcionamento dos sistemas virtuais de conhecimento têm profundas relações com a lógica e o funcionamento do nosso sistema cognitivo, esses sistemas têm, em sua própria estrutura, um imenso potencial para a educação.


Essas características, por si só, não garantem que as tecnologias digitais se tornem ferramentas úteis para a melhoria da educação. Para que isso ocorra, é fundamental, entre outras coisas, ?investir em apropriação e produção de tecnologias por docentes de todas as áreas da escola? (SILVA e MERKLE, 2018: p. 24). Nesse sentido, o desafio da prática é maior do que o da pesquisa de métodos e técnicas de ensino. Para Vieira Pinto (2005 apud SILVA e MERKLE, 2018: p. 27), "não pode haver teoria do conhecimento a não ser partindo da prática do conhecimento. Esta tese geral aplica-se com especial relevância quando consideramos sob o título de prática a criação das máquinas cibernéticas e o trabalho de processamento de dados nelas realizado"(*4).


Vemos que o potencial das TR para a educação é muito grande, mas ainda há um longo caminho até sua efetiva concretização. Com o advento da pandemia do COVID-19 esse processo se acelerou grandemente. Apesar das dificuldades para a integração efetiva das modalidades de educação presencial e virtual, a necessidade da utilização de tecnologias digitais pela grande maioria dos professores nesse momento de crise, mesmo quando feita de forma apressada e atabalhoada, possibilitou a eles uma prática que dificilmente teriam em uma situação normal. Assim, a apropriação dessa prática como uma parte essencial no processo de construção do ?novo? modelo de educação pós-pandemia é fundamental.


NOTAS:


1. World Wide Web - ?o famoso WWW, é um sistema de documentos dispostos na Internet que permitem o acesso às informações apresentadas no formato de hipertexto?. (https://www.tecmundo.com.br/web/759-o-que-e-world-wide-web-.htm)


2. Hipertexto - De forma simplificada, o hipertexto pode ser definido como o texto em ambiente digital. Ele é construído de forma que algumas de suas partes sejam ligações com outros textos. Por exemplo, se você clicar aqui será direcionado para outro texto, nesse caso para uma página com a definição de hipertexto.


3. Hipermídia - É a união do hipertexto com a multimídia, ou seja, um ?documento? em hipertexto que tenha conexões com imagens, vídeos e/ou sons. Ou seja, é a linguagem padrão da Internet.


??4. Citação literal - A plataforma que hospeda este blog foi atualizada e, por enquanto, não é possível deixar deslocado um trecho com citação literal, como previsto pela ABNT. Assim que esse problema for resolvido, esta citação será alterada para o padrão das normas técnicas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


SILVA, R. B.; MERKLE, L. E. Tecnologias educacionais: rumo a uma discussão em ciência, tecnologia e sociedade no Brasil. In: FRASSON, A. C.;


OLIVEIRA, A. C.; GLAP, L. (Org.). Formação docente: princípios e fundamentos. Ponta Grossa (PR): Atena Editora, 2018. p. 12-29. Disponível em: <https://www.atenaeditora.com.br/wp-content/uploads/2018/09/E-book-Formação-Docente_Princípios-e-Fundamentos.pdf>. Acesso em: 25 jun. 2020.


TEIXEIRA, A. C. et al. Como o ciberespaço coloca fim à Educação a Distância. In: MACHADO, G. J. C. (Org.). Educação e Ciberespaço: estudos, propostas e desafios. Aracaju: Virtus, 2010. p. 182-207. Disponível em: <https://bibliodigital.unijui.edu.br:8443/xmlui/handle/123456789/1798>. Acesso em: 25 jun. 2020.