A leitura é, sem dúvida, uma das aprendizagens mais importantes, pois é o alicerce para a maioria dos conhecimentos que utilizamos em nossas vidas. Apesar de ser uma habilidade complexa, uma grande parte das pessoas aprendem a ler com relativa facilidade. Entretanto, um número significativo de pessoas apresenta dificuldades em sua aprendizagem, apesar de possuírem um nível de inteligência médio ou superior.
A origem dessa dificuldade era desconhecida até alguns anos atrás, uma incapacidade invisível que gerava muitos problemas e estigmatizava aqueles que não a conseguiam ultrapassar. Com o grande desenvolvimento das neurociências nos últimos 30 anos, os métodos de imageria cerebral
permitiram observar o funcionamento do cérebro durante as atividades de leitura e escrita e obtiveram um conjunto bastante consistente de conclusões sobre as seguintes questões: Como funciona o cérebro durante as atividades de leitura? Quais as competências necessárias a essa aprendizagem? Quais os défices que a dificultam? Quais as componentes dos métodos educativos que conduzem a um maior sucesso? (TELES, 2004: p.713)
No artigo ?Neurociências e Alfabetização? eu apresentei as respostas encontradas para as duas primeiras questões, sobre o funcionamento do cérebro durante a leitura e as competências necessárias para sua aprendizagem. O tema deste artigo são os déficits que dificultam essa aprendizagem e a última questão, sobre os componentes dos métodos educativos que conduzem a um maior sucesso na aprendizagem da leitura, será tema do próximo artigo.
Há duas classes de distúrbios que podem determinar dificuldades com o processo de leitura: sensório-motores, relacionados a déficits auditivos, visuais e/ou motores; fonológicos, resultantes de características atípicas do córtex auditivo, que geram danos no processamento dos elementos sonoros da linguagem. Apesar de utilizarem corretamente as palavras, sílabas e fonemas na linguagem oral, algumas pessoas não têm o conhecimento consciente dessas unidades linguísticas devido ao déficit fonológico, apresentando dificuldades a nível da identificação e processamento dos segmentos fonológicos da linguagem.
A dislexia é uma perturbação persistente na decodificação da linguagem escrita que tem a sua origem num déficit no sistema fonológico. Ela é, provavelmente, a perturbação mais frequente entre a população escolar, com uma prevalência entre 5 a 17,5%, dependendo do grau de dificuldade dos diferentes idiomas. Nas línguas em que a correspondência entre fonemas e grafemas é mais regular, como o italiano, o finlandês e o turco, são cometidos menos erros. Nas línguas em que há mais irregularidades nessa correspondência, como o inglês e o francês, são cometidos mais erros. O português é uma língua intermediária entre esses dois extremos. O número de meninos disléxicos é bem maior do que o de meninas, com uma incidência duas a três vezes maior.
O funcionamento do cérebro durante a leitura explica a dificuldade de aprendizagem das pessoas com dislexia. Os leitores eficientes utilizam um percurso rápido e automático para ler as palavras, ativam intensamente os sistemas neurológicos que envolvem a região parietal-temporal e a occipital-temporal (Imagem 1) e conseguem ler as palavras quase instantaneamente, em menos de 150 milésimos de segundo. Já os leitores disléxicos utilizam um percurso lento e analítico para chegar ao significado. Eles ativam intensamente o girus inferior frontal, onde vocalizam as palavras, e a zona parietal-temporal, onde as segmentam em sílabas e fonemas, fazem a tradução grafofonêmica, a fusão fonêmica e as fusões silábicas.
Imagem 1 ? Cérebro e Leitura.
Os disléxicos apresentam uma ?disrupção? no sistema neurológico que dificulta o processamento fonológico e o acesso aos sistemas de análise das palavras e de leitura automática. Para compensar essa dificuldade, eles utilizam mais intensamente a área da linguagem oral, o girus inferior-frontal, e áreas do hemisfério direito que fornecem pistas visuais.
Podem ser observadas manifestações da dislexia antes do início da aprendizagem da leitura. Se os sinais indicadores de dificuldades forem observados e se persistirem ao longo de vários meses, os pais devem procurar uma avaliação especializada. A intervenção precoce é, provavelmente, o fator mais importante na recuperação dos leitores disléxicos. Os anos perdidos não podem ser recuperados. É importante considerar o histórico familiar de dificuldades de leitura e ortografia, pois a dislexia é, normalmente, um problema familiar.
Há vários sinais indicadores na primeira infância: o atraso na aquisição da linguagem oral, com as primeiras palavras depois dos 15 meses e frases só após os dois anos; após o início da fala surgem dificuldades de pronúncia (linguagem ?bebê?) além do tempo normal; incorreções típicas são a omissão e a inversão de sons em palavras (fósforos/fosfos, pipocas/popicas).
São sinais indicadores na Educação Infantil: linguagem ?bebê? persistente; frases curtas e mal pronunciadas, com omissões e substituições de sílabas e fonemas; dificuldade em perceber que as frases são formadas por palavras e que as palavras podem ser segmentadas em sílabas; dificuldade em memorizar canções; dificuldade na aquisição dos conceitos temporais e espaciais básicos, como ontem/amanhã, direita/esquerda e depois/antes; dificuldade em aprender nomes de cores, de pessoas, de objetos e de lugares; não saber as letras do seu próprio nome; dificuldade em aprender e recordar os nomes e os sons das letras.
No primeiro ano do Ensino Fundamental, durante o processo de alfabetização, os sinais indicadores são: dificuldade em compreender que as palavras podem ser segmentadas em sílabas e fonemas; dificuldade em associar as letras aos seus sons; erros de leitura por desconhecimento das regras de correspondência grafofonêmica (vaca/faca, calo/galo); dificuldade em ler monossílabos e em soletrar palavras simples (ao, os, pai, bola, rato); maior dificuldade na leitura de palavras isoladas e de pseudopalavras (palavras inventadas, por exemplo ?modigo?); recusa ou insistência em adiar as tarefas de leitura e escrita; necessidade de acompanhamento individual do professor para prosseguir e concluir os trabalhos; relutância, lentidão e necessidade de apoio dos pais na realização dos trabalhos de casa; queixas dos pais e professores em relação às dificuldades de leitura e escrita.
A intervenção precoce é fundamental, estudos recentes comprovam que as crianças que apresentam dificuldades no início da aprendizagem da leitura e escrita dificilmente se recuperam caso não ocorra uma intervenção precoce e especializada. Após os nove anos de idade, o tempo e o esforço dispendidos na reeducação aumentam exponencialmente. A boa notícia é a possibilidade de ?reorganizar? os circuitos neurológicos se for implementado um programa reeducativo concebido com base nos novos conhecimentos neurocientíficos.
Assista ao vídeo sobre este conteúdo no meu canal do YouTube: https://youtu.be/8Dd30xcNWGw.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS????????????
CARBONI-ROMÁN, A. et al. Bases neurobiológicas de las dificultades de aprendizaje. Em: Revista de Neurologia, Barcelona, v. 42, n. 2, p. S171-S175. 2006. Disponível em <https://www.uma.es/media/files/BASES_NEUROLOGICAS_DE_LAS_DA.pdf>. Acesso em 2 mai 2020.
OECD. Understanding the brain: the birth of a learning science. Paris: OECD ? Organisation for Economic Co-operation and Development, 2008. Disponível em: <https://www.oecd.org/site/educeri21st/40554190.pdf>. Acesso em 31 mar. 2008.
???TELES, Paula. Dislexia: como identificar? Como intervir?. Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, [S.l.], v. 20, n. 6, p. 713-30, nov. 2004. Disponível em: <http://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/10097/9834>. Acesso em 19 mar. 2012.